Relacionamento em tempos de comunicação escassa

Relacionar-se nunca foi fácil, e está bem longe de ser um paraíso como queremos acreditar quando estamos em início de namoro ou em algum relacionamento que ainda imperam as gloriosas ondas da paixão. Mas bastou virar amor e lá vamos nós para a difícil arte de desculpar ( se desculpar e desculpar ao outro), relevar, fazer vista grossa, conversar, ter D.R. e tantas outras manobras incessantes para que o projeto vida a dois permaneça e dê frutos.

 

Mas fico aqui, eu, no auge de minha grande reflexão sobre as relações, e entenda que eu tenho um lugar de fala, como bem se diz por aí, pois vivo em um “relacionamento sério” ( tal qual o FaceBook define) com a mesma pessoa longos 30 anos. Sim, tudo isso. E tendo então esse lugar de fala é que me vi pensando na penosa odisseia que deve ser iniciar um relacionamento ou continuar nele para ela galera que padece de forma enferma da pouca capacidade de se comunicar.

 

E quando digo comunicar, não quero apenas falar, cobrar, apontar fatos e temas mas se comunicar de forma extensiva e eficiente, ou seja, se comunicar de forma satisfatória a ponto de ser o suficiente para permanecer.

 

Em tempos de relações efêmeras e muito “não deu mais “que ando ouvindo em meu consultório, entendo que quando há comunicação, esta não está chegando ao ponto da questão, talvez porque as questões reais nem estejam sendo colocadas à mesa por assim dizer.

 

Falar, dizer, colocar – todas essas palavras lindas que quando pensadas de forma mais profunda nos levam, ou ao menos deveriam nos levar a um ponto crucial _ o que eu estou falando sobre mim que vejo no outro?.

 

O quanto cada um tem se ocupado de se comunicar consigo para se entender, se desvendar, se tolerar para então colocar sua comunicação em um lugar eficiente de poder se ouvir para poder ser ouvido. Sei que agora você já pode estar pensando ao ler isso _ Ufff! Papo de terapeuta e até pode ser, mas dá uma chance e continua comigo.

 

A questão aqui é que o que a grande maioria tem feito nos relacionamentos, e não se aplica apenas aos amorosos. Existe uma regra para a comunicação que é a seguinte _ Ninguém repete um padrão em apenas um lugar da vida _. Então se você está no grupo dos que desistem com facilidade, toleram pouco, acham sempre um defeito e não se esforçam para ajustar sua comunicação para entender e ser entendido, desculpe mas você está no grupo da galera que dá poucas chances.

 

Relacionar-se é tentar, e tentar de novo, e ajustar e remendar e tentar de outra forma e falar mais algumas vezes, e vou dizer a verdade isso se aplica a cada um de nós a nós mesmos muitas vezes.

 

Somos seres coletivos, mas a única voz que não cessa em nossa vida é a nossa. É aquela voz interna que por vezes se torna infernal, ou pode ser maravilhosa e impulsionante, mas para que ela se torne assim, incentivadora, você precisa aprender a se relacionar, isso mesmo, se relacionar com você.

 

Comunicação tem tudo a ver com relacionamentos, como eu disse, e uma vez que você torna sua voz interior tanto instigante quanto tolerante, primeiro para com você mesmo, as chances de você externar esse comportamento e estendê-lo aos seus relacionamentos é muito maior.

 

Dados concretos, pessoas que passam por terapias comportamentais tendem a desenvolver melhor capacidade de socialização, a ter relacionamentos amorosos mais saudáveis  e duradouros porque se tornam mais assertivas.

 

A assertividade na comunicação é aquela ferramenta mágica que faz você saber mapear suas necessidades tanto quanto a do outro e agir de forma concreta na realização e satisfação delas todas. 

 

Nos relacionamos invariavelmente com aquilo que nos falta, reproduzimos os modelos relacionais de nossos pais, em grande medida quando não nos individualizamos e nos tratamos. Então se você quer ter relacionamentos saudáveis e duradouros, entenda-se, cure-se e então estará apto a seguir de forma construtiva.

 

Mas como fazer isso se vivemos hoje em uma sociedade que tem medo até de pegar no telefone e fazer uma ligação? Que pensa que todos os assuntos do mundo podem ser resolvidos por mensagens de texto ou áudios de 3 minutos?

 

Se relacionar pede a primeira quebra de barreira, que é a de estar presente. Sim, para alguns pode parecer assustador mas é isso mesmo, estar presente, cara a cara. E quanto mais você exercitar essa forma concreta de se relacionar em todas as áreas de sua vida, mais ficará apto, prometo.

 

Hoje somos a sociedade mais viciada em endorfina que já existiu e isso tem um preço, as relações foram se tornando pouco a pouco insuportáveis, porque não existe uma IA por traz do sujeito com quem me relaciono para que ele apenas apresente a mim conteúdos relevantes e interessantes que despertem em mim bem estar. 

 

Ao se relacionar humanamente vem de tudo, assunto bom, assunto chato, aborrecimento e vida – a imprevisível vida.

 

Se você é daquele que nos últimos relacionamentos que esteve saiu dizendo, “que difícil isso”, sinto muito você deve estar como muitos viciadíssimo em bem estar,  e se relacionar te coloca em um ambiente hostil de ambiguidades e sensações de todos os tipos.

 

Como eu disse antes, ninguém age de uma forma apenas em uma área da vida, então como seria pensar que toda a sua forma de se relacionar pode estar parcial e rasa, e isso pode implicar em situações desgastantes em diversas áreas de sua vida.

 

O querer é uma arma poderosa, mas o persistir e o se dedicar até conseguir são maiores.

 

Para todo o tipo de relação você precisa ter disposição ( para se expor e estar de forma integral) dedicação (porque apenas dessa forma você consegue se aprimorar) e divertimento (para que haja uma compensação satisfatória ) e não dá para desenvolver nenhuma dessas habilidades sem se conectar e desenvolver uma comunicação eficiente para entender e ser entendido.