Viver sem morrer

A vida! Tem significado no verbete de existência. Do latim “vita”, que se refere à vida. É o estado de atividade incessante comum aos seres organizados. É o período que decorre entre o nascimento e a morte. Por extensão vida é o tempo de existência ou funcionamento de alguma coisa. Dado este prenúncio do bem mais valioso que detemos seguiremos marcha nos trilhos desse elemento mais precioso e importante para nós, seres mortais. A dádiva da vida se dá aquela que nos gerou no ventre por quase nove meses, alguns até por mera liberalidade decidem antecipar este tempo e acabam proporcionando aos pais o maior perrengue na estreia. Já na tenra idade somos o animal que mais depende dos pais, pois cerca de dois anos não sabemos absolutamente nada! Bem, é certo que muitos até no avançar da idade continuam nesse estágio de dependência e senis. Mesmo quando pequenos os primeiros passos quase robóticos desbravam os limites entre dois pontos, de onde você parte até onde cai ou desaparece. Notadamente passamos da infância pela fase da explosão dos hormônios, transformações físicas, mentais, onde tudo parece estar na contramão dos nossos ideais. Há quem diga ser o momento da rebeldia, malcriação, independência, porém, como toda fase, passa. Nesse momento eu com meus saudosos 14 anos de idade já me laçava no mercado de trabalho e conquistei a tão sonhada vaga em uma banca de legumes na feira-livre. E olha que meu amado reprovava essa minha atitude e dizia que eu deveria apenas estudar. Bem, filho de portuário e mãe (in memoriam) e dividindo quarto com um irmão mais velho não era nada fácil a ele manter tudo sozinho. Naquele tempo íamos para a residência dos donos da barraca de feira, orientais rígidos no tratamento e exigentes no serviço por volta das 23h30. Logo embarcávamos em um cafofo (espécie de cabana feita com caixas de madeira e os tabuleiros que serviam de bancada) com destino à Ceagesp todas segundas quartas e sextas-feiras para carregarmos o caminhão com os produtos que seriam vendidos na feira. Quando vou à feira livre percebo que nos tempos atuais as barracas costumam ser montadas por volta das 07 horas. No meu tempo eram montadas por voltas das 04h30 e 05h da matina. Foram vários amanheceres do dia que pude presenciar. Tão belos que no silencio da alvorada o brilho solar irradiava entre a escuridão e expulsava os pássaros dos galhos das árvores que logo nos contemplavam com suas revoadas e cantos. Eram como uma sinfonia que ecoava uma linda canção de boas-vindas ao dia que se iniciava. Todavia, nos dias de chuva as lembranças não foram na mesma intensidade. Foi um período de muito aprendizado e pude perceber que a humildade era algo a ser cultivado em meu caráter. Ao terminar o período escolar do ginásio (hoje ensino fundamental) foi aprovado em um curso técnico (naquele tempo você tinha que prestar um Vestibulinho que era uma espécie de vestibular, porém para o colegial hoje ensino médio). Logo enfrentei a dificuldade de conciliar os horários, pois meu ensino era noturno e o serviço começava também à noite e tive que sair do emprego. Passei por outros empregos até chegar na maior idade com ela as responsabilidades se multiplicaram. Aos 23 anos de idade foi aprovado num concurso público.

Nesse período nasceu minha filha mais velha e com a sua chegada minha vida já não tinha como alvo eu, mas alguém que efetivamente não havia pedido para vir ao mundo e, portanto, recaia sobre mim essa missão. Durante esse tempo decidi realizar um sonho de criança de ser Advogado. Prestei o vestibular e fui aprovado para dar início ao curso de ciências jurídicas. Não bastou apenas vontade e determinação para conseguir participar do curso, me faltou recursos financeiros pois a faculdade era particular e o custo comprometia a sobrevivência da minha família. Muito me valeu ser católico apostólico romano praticante (registro aqui todo meu respeito a todas outras religiões), mas a faculdade era católica e lá havia uma bolsa reembolsável, ou seja, você pagava metade do valor da parcela e a Fundação custeava a outra metade. Se bem que minha faculdade paguei em dez anos, mas eu precisava do título e o resto ficou comigo. Com o tão sonhado diploma nas mãos não hesitei e decidi juntamente com minha amada esposa de enfrentar os desafios que a vida iria me impor e decidi largar o funcionalismo público para desbravar os trilhos da vida autônoma de profissional liberal. Foi paixão à primeira vista, atrelado ao orgulho de ser o pioneiro de ser o primeiro a conquistar um título de curso superior na família. Minha saudosa mãe se desdobrou em mil juntamente com meu pai e no dia da minha formatura me presenteou com o anel de pedra vermelha, rubi, cravado em ouro amarelo e branco com dois brilhantes o qual reservo em local de destaque com muito carinho. Não me contive e todos nos lançamos em lágrimas pela conquista. De sorte nos primeiros passos como causídico percebi a familiaridade com a profissão de modo que alavanquei a carreira com direito a reconhecimento dos pares e clientes. Dizem que um grande diferencial além da competência é a empatia. Outros dizem que sou combativo em excesso (para não dizer encrenqueiro), mas tudo é realizado por mera paixão à causa. É isso mesmo, Paixão com letra maiúscula. Basta eu literalmente me convencer da inocência de um cliente e logo a paixão eclode com todas as reservas de vocação possíveis e imagináveis. A paixão é tamanha que a pouco tempo pude perceber que ela (paixão) acarreta consequências na saúde, tais como, estresse, ansiedade, pressão alta e outras coisas mais. Pois é, pude perceber da pior maneira que paixão pode matar sem que possamos perceber. O sinal de alerta foi quando um profissional da área da saúde que realizava um eletrocardiograma e aferia minha pressão arterial disse: “o senhor deve deixar seu coração bater mais forte por essa que está aqui” (se referindo a minha filha do meio que me acompanhava na ocasião) e completou: “ o senhor precisa ser um pouco mais egoísta consigo mesmo”. E ao me despedir lançou a última dádiva filosófica: “reserve um tempo somente para o senhor”. De onde menos se espera é de onde se vem as melhores lições. A vida é passageira e somos os condutores desse veículo expresso. Não devemos nos esquivar de nossas responsabilidades e das paixões, mas, sobretudo, é importante reservar a atenção a quem mais precisa de nós, senão, nós mesmos. Como conseguir dar amor, atenção, dedicação a quem amamos se deixarmos de existir?! E não devemos nos furtar de fazer sempre mais, como verdadeiros Titãs e não como o Epitáfio dos Titãs: “Devia ter amado mais, ter chorado mais, Ter visto o sol nascer, Devia ter arriscado mais e até errado mais, Ter feito o que eu queria fazer, Queria ter aceitado, As pessoas como elas são, Cada um sabe a alegria, E a dor que traz no coração”. A morte não pode ser antecipada em “vida”! Viva intensamente a cada dia como se fosse o último.  

Por Dr. Émerson Tauyl
Advogado Criminalista, especializado em Direito Militar e Segurança Pública, com escritórios em São Paulo
e Praia Grande
@emerson_tauyl